Sobre o luto – Por Israela Pontes | Instituto Primeiro Olhar

Sobre o luto – Por Israela Pontes

Desde que o Instituto foi fundado há pouco mais de um ano passamos pela dor do falecimento de 4 bebês e a cada vez que precisamos enfrentar junto com as famílias esse momento do luto passamos por um grande desafio. Uma de nossas fundadoras, Israela Pontes, passou por essa dor ao perder a sua primogênita e escreveu um depoimento sobre essa experiência com o intuito de nos fazer compreender um pouco da sua dor e do luto que todos passam.

“Falo muito sobre a minha filha Israelle que partiu cedo demais, mas acho que nunca falei sobre o processo de luto propriamente dito… Sempre ouço que não pareço ter passado pela perda de um filho… Pasmem! Pareço uma pessoa “normal”.
O que é parecer normal? É continuar acordando, levantando da cama, indo pro trabalho, dirigindo, caminhando na rua? Cuidando dos outros filhos ? “Mas você é tão forte”. O que é ser tão forte? É continuar acordando, levantando da cama, indo pro trabalho, dirigindo, caminhando na rua, cuidando dos outros filhos?
Sempre que escuto isso, me pergunto: qual minha outra opção? Qual seria ela, que não deitar na cama, me encolher, e nunca mais levantar? Se tenho vontade de fazer isso? Todos os dias.
Não, eu não estou “normal”. E, não, eu não sou “tão forte”. E ainda parece que foi tudo ontem, mas sigo adiante, vivendo aqui na minha realidade paralela, que só eu habito. Primeiro porque, de concreto, é a única opção que tenho. Seguir adiante é trazer menos dor para pessoas que amo muito e, por consequência, menos dor pra mim mesma. Segundo porque, envolta numa onda tão forte de amor, carinho e acolhimento, de todos os lados – amigos antigos, amigos novos, família distante, família próxima, e mais um bando de gente com quem convivo, não poderia ser diferente. Só por isso consigo seguir adiante. Só por isso consigo levantar da cama todos os dias. Só por isso consigo tomar um café, fazer meu trabalho, dirigir no trânsito, ir ao supermercado, tomar banho, fazer um curso, cuidar da minha família…
Não fosse o amor imensurável pela minha família, não fosse o amor pelo próximo, não fosse meu trabalho no Instituto Primeiro Olhar, não fosse minhas funções como juíza, não fosse tudo que envolve meu dia a dia , não seria possível.
Na dor, não fosse o amor, seguir seria impossível…
Mas, acho que o mais difícil ao perder um filho é que inevitavelmente perdemos o nosso próprio futuro e não só o dele. Perdemos o beijo da saída da escola, perdemos as festinhas de aniversário, a primeira nota baixa, o dia de domingo na praia catando conchinhas, o aconchego na nossa cama quando eles estão doentes, os 15 anos, a despedida da escola e o ingresso na Universidade, a formatura, o primeiro emprego, a oportunidade consolar nas frustrações da vida, o casamento, o nascimento dos netos e enfim o ultimo olhar quando chegar o momento da nossa própria partida…
De fato, Perder quem amamos é morrer um pouco, mesmo que o coração insista em bater. O luto nos torna um lugar ruim. Queremos fugir de nós mesmos, emprestar outra vida, perder a memória, trocar de papel. Qualquer coisa que nos tire a dor com a mão, que nos salve do horror de sentir que alguém foi amputado de nós. Não há alívio imediato.
Mas, como criança que cresce, o luto demanda tempo. Enquanto isso, não se sai por aí despertando sorrisos. Num mundo programado para a felicidade, o luto constrange. Abre um hiato de mal estar. A morte é certeza demasiado espinhosa para que se toque nela com naturalidade.
Talvez fique para sempre mesmo: a perda vai se amoldando ao corpo, fazendo parte dele, até não incomodar mais ou pelo menos não incomodar sempre. Com paciência, o tempo muda os afetos de lugar. Passa a morar em nós quem se foi.
E então a dor nos leva a outros lugares. Abre nossos olhos, nos ensina a mudar de assunto, de vida, muda as expectativas, faz entender o que de fato importa. E assim, distraidamente, vai nascendo uma nova vida de novo – agora outra, porque sempre é tempo para mudar.
Não foi fácil, mas (ainda que pareça clichê) eu aprendi demais. Não que eu queira que outras pessoas passem por essa dor, mas ter que enfrentar a partida prematura da minha filha e esse esse contato tão cedo com a morte, foi transformador – eu aprendi a aceitar os momentos ruins e transformar o desespero em algo novo. Sou grata a inúmeras pessoas que me ajudaram a construir novamente felicidade e paz e são companheiras na minha jornada de crescimento pessoal. E também por ter encontrado tanta coragem e resiliência dentro de mim. Entendi que o tempo ameniza a dor, mas é a gente que reinventa a vida!” Por Israela Pontes

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